A insustentável leveza da transparência

Fonte: O Globo, Isabel Kopschitz, 16/out
 

Projetos com acrílico, cristal e vidro dão o tom na 21ª Casa Cor

Quando proferiu a célebre frase “Menos é mais”, o arquiteto Ludwig Mies van der Rohe, considerado um dos maiores do século XX, não se referia a transparências. Mas seu pensamento, sempre atual, também se aplica ao tema desta reportagem. Afinal, a quase invisibilidade do mobiliário e de objetos decorativos confere leveza e simplicidade aos ambientes, e os quatro projetos da 21ª edição da mostra Casa Cor, nesta página, demonstram isso. Seja por meio do uso de acrílico, vidro ou cristal, a tendência se revela contemporânea. Em alguns casos, é o elemento neutro necessário e serve também para unir peças atuais a ambientes clássicos.
 
Incumbido de intervir num banheiro art déco, no segundo andar do palacete Lin- neo de Paula Machado – onde a mostra acontece este ano e ficará até 16 de novembro -, o arquiteto Luiz Fernando Grabowsky procurou preservar ao máximo o estilo original do local. Construído na década de 1930, numa das reformas sofridas pelo palacete, o banheiro ostenta nas paredes cerâmica vitrificada importada, azul-turquesa, e nas pias, cubas de prata de lei. Todos os metais foram polidos e cromados e os mármores, limpos.

Toque contemporâneo a ambientes de época

Junto a um espelho de corpo inteiro, colocado pelo arquiteto numa das paredes, foi encostada a cômoda de acrílico transparente “Ghost buster”, do designer Philippe Starck. À frente dela, uma cadeira feita do mesmo material, também de grife: a “Thalya”, de Patrick Jouin.

– O mobiliário de acrílico, com um design superatual e afinado, não brigou nada com o estilo do banheiro. Eles são, de certa forma, neutros, o que é perfeito para este tipo de intervenção – diz Grabowsky, que é presidente do Instituto Art Déco do Brasil.

O arquiteto ressalta que sua maior intervenção no banheiro foi forrar o mármore das paredes laterais à banheira com gesso e nele inserir pastilhas, reproduzindo um painel do artista plástico falecido Paulo Werneck, que está no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

No cocktail lounge bar, assinado por Jairo de Sender, a mesa de jantar tem tampo de cristal e as cadeiras são de acrílico transparente. Com 2,20 metros, a lâmina fica apoiada em quatro cavaletes de acrílico de cor laranja. Em cima da mesa, arranjos florais de Tuca Loeb dão a impressão de brotarem da mesa. Se¬guindo o estilo irreverente do arquiteto, o local mescla de tudo: de veludo a patchwork, de acrílico a fórmica.

No teto, uma brincadeira inusitada: molduras antigas de Jaime Vilaseca. Segundo Sender, a idéia da transparência foi não ofuscar as obras de arte do lounge, como as telas de Gil Cabral.

– O mobiliário não concorre com outros elementos, que devem sobressair – explica Sender, acrescentando que um

projeto de decoração deve ser algo atem- poral e surpreendente.

Responsáveis pelo jardim de entrada da Casa Cor, Daniela e Sônia Infante projetaram um ambiente contemporâneo, que contrasta com o palacete francês de estilo eclético, mas de forma sutil, sem destoar. O lounge central do jardim tem dois sofás, poltrona, mesa de centro e dois bancos feitos de tela de galinheiro galvanizada, todos da Arteiro. Os futons usados têm tecidos Mucki Skowronsky.

– O palacete é muito pomposo, então nossa idéia foi elaborar uma decoração simples e contemporânea, mas mantendo um diálogo com a arquitetura da construção – explica Sônia.

Pendendo de um dos galhos de uma árvore, três luminárias chamam a atenção. Elas são lanternas que abrigam lustres, todas peças confeccionadas por Sônia. Dois lustres são de cristal e um, de acrílico. O resultado, diz, é simples e sofisticado, ao mesmo tempo.

– Fiz a adaptação, inserindo os lustres nas lanternas, e acho que ficou interessante tanto para o exterior quanto para o interior de uma casa – conta Sônia. – Não queria nada que pesasse.

Na grande varanda do palacete, as arquitetas Angela Frota e Anna Luiza Rothier montaram um jardim contemporâneo. Duas cadeiras “Ghost”, de Philippe Starck, dividem espaço com plantas, um sofá de vime e um aparador de madeira e vidro. Em cima de uma mesinha, cachepôs e cubos de vidro com plantas dão impressão de que o verde está in natura.

– Gosto muito de usar vidro e acrílico, materiais que resistem bem em áreas externas – diz Anna. – Além disso, as transparências são um bom caminho para mesclar o contemporâneo com elementos de época.

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